terça-feira, julho 12, 2005

A essência das férias

Todos nós achamos que precisamos de férias para fugir ao stress e horários rigidos do trabalho. E quando chegam as férias apercebemo-nos do quão verdadeiro esse pensamento é:
- Que bom que estamos de férias, amor...
- É verdade, viva o descanso e a flexibilidade horária. Olha lá, por falar em horas, já fizeste o almoço?
- Ainda não, amor.
- Então, mas já são dez para a uma. Ouve lá, queres que eu almoce às duas, é?! Daqui a bocado estou a lanchar, não?!

Na verdade, a essência das férias é meter pirraça aos outros. Ponto.

O dia mais feliz das férias é sempre o último dia de trabalho. Mais do saber que se vai de férias, não há nada melhor que mostar aos outros que vamos de férias.
"Eh pá, que cansaço. O que vale é que vou de férias."
"Olha, se isto não ficar feito hoje, podes pegar no assunto? É que eu vou de férias."
"Então, bom fim-de-semana. Ai que cabeça a minha... até para o mês que vem. Vou de férias."

Para as mulheres, ir de férias representa também a opportunidade de finalmente ter tempo para fazer algo que realmente as excita e lhes dá prazer: a mala.
A mala de uma mulher faz-me lembrar a Arca de Noé. Tem roupas de todas as espécies, e leva sempre duas de cada.
- Vou levar também a minha gabardina nova.
- Querida, não temos mais espaço.
- E se estiver a chover?
- Querida, vamos ao Sahara em pleno Verão! Vamos andar no deserto, ok? Deserto! Areia quente!
- Pronto! Desculpe, sim?!... Olha lá, três pares de sapatos de “Salto Agulha” chegam?

Deve ser por isso que não há muitas mulheres astronautas. É difícil explicar que dentro de uma cápsula espacial o fato espacial é o mais indicado, mesmo que não seja laranja, não tenha decote e não mostre o umbigo.

Para os homens, as férias são o período de descanso por excelência. É a altura em que despimos o fato e mergulhamos na Natureza.
Só nós, as árvores, os pássaros, e o computador portátil com acesso ao e-mail da empresa.
Há ainda quem leve algo que o faça rir ou descontrair.
Eu levo livros.
Há quem leve consolas. Ou jogos de tabuleiro. Ou música. Ou CD’s da Dina.

O problema é arrumar tudo no carro. A começar pela lógica do “vamos pelas prioridades”.
Malas de roupa, sacos com sapatos, malas de roupa, sacos com chinelos, máquinas fotográficas, máquinas de filmar, música para o caminho, comida. (Por esta ordem de ideias).
E às vezes consegue-se arrumar tão bem o carro que ainda sobra espaço para levar os miúdos.


Destino de eleição: Algarve. Não há nada que não se faça pelo Algarve.
“200 contos por quinze dias? Oh querida, é o Algarve, deixemo-nos de mesquinhices.
Vamos é pela Nacional que a portagem está pela hora da morte.”

A Nacional continua a ser o roteiro de muitos portugueses. É muito mais barata, e há sempre a aliciante de se bater o recorde de ultrapassagens em lombas estabelecido no ano anterior.

E não se vai para o Algarve num carro qualquer: vai-se no “Boguinhas”.
O “Boguinhas” é a “Lassie” dos automóveis. Não há chefe de família que não tenha um Boguinhas.(Para quem acha que é chefe de família e trata os carros pela marca, veja lá se tem respeitinho e trata o carrito pelo nome.)

Há três coisas fundamentais no Boguinhas:

1. Água. Tem de ter os níveis de água no máximo, principalmente o da água do limpa-vidros, para a malta poder encharcar o carro que vem atrás;

2. Óleo. Éque é o que diz o mecânico. Se houver muito dinheiro vai um óleo GTX Super Turbo GTI Kompressor, se houver pouco vai “Três A’s Girassol”. Tem é de haver óleo;

3. Vidros eléctricos. Os vidros manuais têm uma vantagem em eventuais portagens: pode-se sempre fingir que estão perros, o que dá tempo para a patroa contar os trocos.
Mas não há nada pior que querer baixar o vidro para mandar um piropo e ficarmos com esgar de quem está a levantar 3 bilhas de gás. Além de ter como banda sonora o coro de ratazanas de Santo Amaro de Oeiras: “Ih, ih, iiiih, iiiih”.

Há uma quarta coisa que todos acham fundamental que é o Ar Condicionado. Sinceramente não vejo porquê, e acho até que carro com AC não tem o direito de se chamar “boguinhas”.
As miúdas de hoje em dia são exigentes, já não se contentam de ver um homem de t-shirt de alças de rede, pêlos no peito, crucifixo em prata e palito na boca.
As miúdas querem ver o braço de fora e a pele a suar. E isso, meus amigos, não é com o vidro fechadinho e brisa de 20º que se consegue.

Além disso, se há utensílio ridículo nas bichas é o Ar Condicionado. Um gajo sai do boguinhas para discutir com quem quer que seja e parece que aterrou num país de mimos.
Eu bem que os espicaço e firo-lhes a masculinidade com grandes tiradas de antigamente:
“Sai cá para fora, ó… ó calorento!”
“Anda para aqui sem bronzeador, se és homem!”
“Não te estou a ouvir. O popó tem vidro duplo, é?”
(Esta é só em casos de emergência, reconheço que é um bocado forte.)

E com esta treta toda já raramente há discussões, escasseiam os concursos de volume de rádio (bons tempos em que o meu Grundig-Bonga arrumava os Alpine-Marco Paulo que pululavam nas outras viaturas) e chega a haver Verões em que não vejo uma única cena de pancadaria. E tira um gajo férias para isto.
É por essas e por outras que prefiro viajar à noite, quando o puto está a dormir. Que raio de valores é que se consegue passar à juventude se uma viagem para o Algarve se resume a rails, carros da Brisa, meia dúzia de chaparros e um polícia a mandar-nos parar em Aljustrel?

CGA