sexta-feira, julho 15, 2005

Hip Hop sou eu e... mais quem?

Antes de mais, gosto de Boss AC. Gosto e pronto.Gosto de hits como a “Lena” que, além de ter uma letra sentida é, juntamente com os filmes do 18 que o pessoal gravava em VHS às escondidas dos velhotes (raio de vídeo, tinha uma cabeça que fazia um chinfrim a gravar...), é uma das formas mais baratas de aprender umas palavritas de espanhol.
E gosto bastante do ritmo de “Hip hop sou eu e és tu”.

E é na qualidade de admirador destes ritmos que eu me pergunto: “Isto é giro, e tal, mas serei eu digno de ouvir esta música?” (Eu tenho esta mania ridícula de achar que para ouvir uma música tenho de me reconhecer nela. Acho que é por isso que cada vez que ouvia Nel Monteiro abria dois botões da camisa e pendurava um crucifixo ao peito.)

Reconheço que nos meus idos de adolescente usava calças de ganga tão largas que davam para fazer corridas de saco a dois, e punha a cintura das calças mais abaixo que um carpinteiro agachado.
Usava era aquelas coisas chamadas cuecas, que impediam que eu mostrasse o “Vale Encantado Gay”.

Hoje em dia, apercebo-me que tenho uma relação dúbia com o Hip Hop de cada vez que o comboio passa em Corroios:
“Ena, música porreira. Hip Hop, yo, hip hop, yo, hip… é pá, olha para aquelas paredes cheias de gatafunhos. Mas quem é que escreve isto, pá?! Era limparem aquilo tudo com a língua, é o que é!”
É que eu até compreendo, e admiro, malta que sabe pintar à séria com graffiti. Agora, quem é que passa uma mensagem de respeito escrevendo “A bófia mata, mata a bófia”, “Eu quero é a tua mãe” ou “Johnny Dread do Gingal”?
E não gosto de graffitis feios como não gosto de mensagens de mau gosto escritas a tinta, como “Amora não é África”, “Morte aos pretos”, “Não há Pipis” ou “Viva o Sporting”.

Com estas dúvidas de existencialismo “hiphopiano”, dei por mim a escalpelizar a letra da dita “Hip hop sou eu e és tu”, para perceber até que ponto me revejo neste som. Ora cá vai:

Tu sabes quem é yo
(Por acaso sei. É o Boss AC. Pumba! 1-0 para a cultura hip-hop)
AC o manda chuva yah
(Tivesse o governo aproveitado homens com este poder e o Alentejo não estava em crise.)
Sente a vibe yo
(A vibe é a batida, também conhecida como o “beat”. Isto é muito à frente!)
Yo, a inveja é um sentimento muito feio
Mete na cabeça que não tou aqui a competir num torneio
Não é andar aos empurrões pa ver quem chega primeiro
(Diz isso aos gajos do Metro…)
Ser verdadeiro não é imitar o que vês na t.v. o dia inteiro
(Mas quem é que vê TV o dia inteiro?! Esta gente não trabalha?!)
Não é por eu, ter contrato que és mais real do que eu
(Ah pois não até porque eu também tenho contrato. E a prazo! Toma!)
Tu nao sabes metade do que me aconteceu
Hip hop nao é, banda sonora dum crime
(Não é. Está provado que os verdadeiros psicopatas gostam de música clássica.)
Se pensas que ser tog emociona enganaste de prime
Se pensas que pra chamar a atenção tens que falar mal de mim
(Ena, Alberto João Jardim, granda boca!)
Enganas-te outra vez porque eu não funciono assim
Hip hop é, dar props a quem quer que os mereça

(ao contrário das reuniões de negócio, em que distribui abraços por toda a gente, independentemente de serem uns grandessíssimos patifes! Acho que é por isso que a malta do Hip Hop não curte gestão de empresas.)
Hip hop é ouvir este granda beat e abanar a cabeça
(Hip Hop ou Parkinson. Depende da idade.)
Break dance, grafiti, dj, mc, beat box, street wear, rimar no M A C
(Traduzam-me “rimar”, se faz favor)
A discoteca a deitar por fora, o people com as mãos no ar
(Isso não será uma rusga?)
O dj a mixar, a pôr a tropa a dançar yo
(A tropa a dançar?! Se o Paulo Portas tem apanhado esta letra, cheira-me que o Boss AC era obrigado a cantar o hino nacional e a alistar-se num submarino.)

REFRAO:
Hip hop, don't stop
Traz a tua crew, a festa é aqui (yah)

(Pá, e se não se levar uma “crew”? Porque não levar uma “Lassie”, ou ir num “boguinhas”?)
Dj beat boy, yo, vito mc
Hip hop sou eu e és tu
(pensei que soubesses nigga)

(Não sabia. Mas tenho uma atenuante: eu sou mais “whita” do que “nigga”.)
Hip hop, don't stop (yah)
Põe as mãos no ar, sente o beat

(Isto deve dar um acompanhamento musical aos polícias que é uma coisa doida. Já imaginaram um polícia apanhar um gatuno e dizer:
“- Põe as mãos no ar!”
E ele:
“- Sente o beat!”
“- Põe as mãos no ar!”
“- Sente o beat!”

Dá-me a impressão de que já passou a hora do meu remédio.)

Throw your hands up and move your feet
(Isto é para vender aos “camones”.)
Boss AC sou eu és tu
(Eu sou o Boss AC?! Ainda agora gastei quase 30 contos a actualizar os documentos de identificação… Isto também é gozar com uma pessoa, pá!
Agora com que cara é que vou chegar a casa e dizer à minha mulher: “Querida, descobri que sou o Boss AC. Esquece lá a semana em Peniche.”)


yo yo hey yo
Hey yo hip hop é a gasosa que me faz andar

(Se custar menos de um euro, troco um hip hop por uma carrinha a gasóleo)
É o sol lá em cima, à noite é o meu luar
É, a razão de estarmos aqui
Hip hop é usar um nome que não estava no B.I.

(Bibá Pita, sua doida!)
Vestir XL usar chapéus ao contrário
(Por acaso tenho um tio que só usa XXL, e eu passo a vida a dizer-lhe: “Props, tio, tu és do hip-hop”, e ele “Não sou nada, tenho é 115 quilos”, e eu “Vá, deixa-te de tretas, essa roupa não engana ninguém”, e ele “ A sério que estou gordo. Deixa-te lá dessas tretas do hip-hop e passa-me mas é a alheira.”)
Hip hop é usar palavras que não vêm no dicionário
(Tipo “operacionalização”?)
É, acordar ás tantas pa fazer um granda beat
(Um “granda beat” não digo, mas às vezes tenho a mania de comer chocolates à noite, e depois é acordar às tantas para fazer um “granda smell”)
É copiar os passos, dança do big street
Dizer o que mais ninguém diz

(Props para o Copérnico!)
Não ter dinheiro, mas mesmo assim ser feliz
(Se o IVA continua assim, cheira-me que o hip hop vai ter mais adeptos que o Benfica.)
É ouvir um som, e ficar tipo em transe
(Isso não é Hip Hop, é Ecstasy)
Uma definição que não está bem ao nosso alcance
É passar numa rua, deixar lá um tag

(Sem comentários)
Hip hop é desafiar o mc que se segue
(Eu uma vez comprei umas calças da MC e desafiei o vendedor: “Só tenho 10 euros!”, e ele ”São 12 e meio” e eu “Ah, descobri uma moeda de vinte, só tenho 10 euros e 20 cêntimos” e ele “ Abaixo de 13 nada feito!”. Desafiei o preço das MC e mostrei que sou um dread. E as calças eram boas.
Valeram bem os 15 euros.)

É, modo de vida, modo de ser, modo de estar
Hip hop é o que sou e o que sou vou continuar yo
(Isso é a chamada postura Santanista. “Eu sou assim, os outros 9.999.998 portugueses é que não percebem nada disto”. Perguntem ao Miguel Almeida que ele explica-vos.)

REFRAO

Hip hop é teres direito de discordares do que quiseres
(Olha lá, onde é que tu estavas no 25 de Abril?!)
E não é menos hip hop só porque falas de mulheres
De certa forma (hip hop) é estar na política

(Anda a malta do hip-hop a tentar provar que hip-hop não são uma cambada de gatunos e depois vêm-me com comparações destas! Estás no bom caminho, estás…)
Não aceitar tudo calado nem desenvolver consciência crítica
O som que analisa, critica, contesta

Não te esqueças que hip hop também é festa
(Ah bom! Gajas!)
Ritmo e poesia é o que nos caracteriza
E quem não sabe dançar improvisa!

(Por essas e por outras é que eu acho que os noivos deviam dançar hip-hop no casamentos e não a valsa, porque o nível de bebedeira do nubente só dá mesmo para o improviso.)

REFRAO


to the hip to the hip to the hop
hip to the hip to the hip you don't stop
hip to the hip to the hip to the hop
hip to the hop to the hip you don't stop

(Tinha amigos que cantavam tipo “hic… ‘tás bom? Hic… hic… hic… és um gajo… hic… porreiro… hic” Perderam-se grandes MC’s só por confundirem hip-hop com uma bruta carraspana.)


Olho para o que acabei de escrever e percebo que já não tenho 15 anos, e uso o cinto acima da zona púbica. Mas vou continuar a ouvir hip-hop.
Com a breca, o meu pai também ouve Dino Meira e nunca emigrou. É o que se chama “abertura de espírito”.
“Respeito!”

CGA